domingo, 30 de janeiro de 2011

Mortes Secas


De tão sombrios que tem sidos os últimos tempos, não se sabe mais a diferença entre noite e dia. Uma imensa noite que se recusa a passar. Um pequeno dia que se recusa a nascer. Nessa noite contínua que continua, não importando ser verão ou outono, a Lua se alterna ao Sol no céu; sem, no entanto, que se possa encontrar uma luz tão forte ou um tempo tão longo que consiga romper as trevas que imperam nesse pedaço do universo ao qual chamam de Sertão.
As trevas tais que preenchem o opaco da fome e da sede, cujos sinais permeiam este lugar, não são as mesmas trevas causadas pela ausência de luz, ou pela força gravitacional de um buraco negro; tão pouco se trata das cantadas e temidas forças rebeldes, na Bíblia, na Torá ou no Al Corão, Não são trevas naturais nem tão pouco líricas - são trevas culturais. Construídas com afinco e dedicação por seres miseráveis; coronéis; marajás; senadores; deputados; políticos de inúmeros partidos - todos do mesmo partido - de todas as religiões. Pior é constatar que obra tão grandiosa, tão desgraçada, não se pode nem dizer fruto do Satanás, pois até mesmo o maldizido receia passar perto de onde os velhos dinossauros bigodudos de cabeça branca edificaram - com sangue nordestino - seus impérios de roubo, de submissão - de desgraça. Hoje seus filhos - filhas - e netos se regojizam nesse sangue.
No dia-noite interminável as graúnas voam ao longe. Vão em busca de água. E água terão.  São pássaros, podem voar. Têm sorte. Espertas. Talvez mais até do que estes imbecis que se julgam no poder. Por força de um português errado, imposto por acadêmicos e definido em  dicionário - que do povo nada tem - define-se prefeito, deputado e senador. Por teóricos que de tão ignorantes tornam-se doutores: define-se governo, estado soberano; São esses os imbecis superados pela graúna, que esperta, foge. Para as colinas; para a chuva. Para o sul maravilha. Coitada da Graúna. Nem pode imaginar o que a espera. Fugindo da seca e da fome e da maldita incompetência humana, acabará morta, soterrada, em um desses barrancos garimpados pela corrupção e pela inoperância. Desses a que chamam de sociais e democratas, e sociais-democratas e trabalhadores, Pobre graúna - nascida na fome, crescida na miséria e morta na corrupção. Soterrada, espera mortinha alguém lhe salvar, enquanto do céu observa aos ministros rirem felizes a investidura no novo cargo.
Sob o luar-sol escaldante a terra reclama por perdão. Trincada, salgada e morta. Não é terra, é pedra esfolada. É piso que se pisa e nada que se cresça algo.  Os únicos vestígios de vida são a própria morte - por todos os lados. Ossos moídos e ressecados - esqueletos há muito carcomidos - e um ou outro carcará,Iinsalubres, ao contrário da graúna, preferem esperar que se morra algo para comerem. Tão seco, tão maldito, tão açoitado pelo homem gordo da cabeça branca é este terreno, que há muito não se vive algo que se possa morrer. Nem mesmo ave carniceira tem agora do que se alimentar.
Observando a caatinga definhar, nove seres de raciocínio conturbado já não tem esperança nem mais na morte. São seres pútridos, castigados  - muito  menos do que Fabiano -  não se acham bichos - são cadáveres - uns corpos lastimados e esqueléticos que se esqueceu de por ao cemitério.
São nove ao total. Se fossem gente - ou bicho - dir-se-ia família, matilha ou bando. São hecatombe. Mas segundo o novo dicionário - não aquele dos imbecis e dos doutores, mas o dicionário que fala as língua e ciência do povo – mínima unidade social, constituído de pai-cadáver, mãe-cadáver e filhos-sem-futuro: definição - genocídio.
Seis desses seres  são crianças - como fósseis de um futuro que nunca se concretizará, seus olhos vislumbram o abandono material, emocional e patriótico. Não são filhos órfãos de pai e mãe; são filhos órfãos de uma pátria. São menos que bichos. São jogados no mundo e por este esquecidos. Valem menos que um animal da selva; valem menos do que uma fechadura arrombada em plena noite;
A mais velha dessas coisinhas se parece uma menina. Seria uma adolescente, se a subnutrição e as algúrias do meio em que vive já não tivessem lhe roubado a juventude antes mesmo que deixasse de ser criança; Em seus braços que mais parecem duas varas de bambu, leva um pequeno primata. Este serzinho que se agarra ao seu pescoço como um miquinho o faz à mãe, é seu irmão. Na verdade, definir o gênero se faz mais por força da sintaxe desta língua lusitana do que pelo que parece realmente ser aquele pequeno esqueleto, Não se pode precisar o sexo da criaturinha. Só se pode precisar os sintomas da grave epidemia que aflige toda essa gente: a corrupção.
A pele da criança, nua e seca, contrasta com o que talvez seja a coisa mais bela em kilometros: um trapinho cor de rosa feito de bom tecido que protege o corpo da garota mais velha do sol-luar, dos abutres - e dos coronéis.
Um pouco atrás da adolescente-idosa, vem o pai-cadáver. Traz consigo mais três filhos-sem-futuro. Segurando a sua mão direita, um pequeno sem-futurinho de pés descalços, cara inchada e olhos profundos. Parece um pequenino fantasma, ou alienígena. Um ser humanoide que de humano mesmo apenas se reconhece as lágrimas na iminência de saltar-lhe à face. À esquerda do matuto homem vem mais duas de suas crias. Ambas aparentam o sexo feminino, pelos cabelos médios encaracolados e pelos traços um tanto mais finos nos rosto. Certeza certeza não se pode ter – a única coisa certa para essa gente, mais do que a morte, é a seca.
A menor das duas crianças – que olhando bem, agora parecem meninos mesmo - além da doença da corrupção, traz consigo as parasitoses típicas desse povo e dessa região. E de parasitas, não se quer dizer aqueles que vivem às custas do suor sagrado do povo brasileiro, mas de parasitas naturais, aqueles que não fazem o parasitismo por burrice ou ignorância, mas por uma condição genética preestabelecida: são lombrigas e amebas e teníases e amarelões. São tantas que nem se pode precisar os nomes, as espécies e as doenças. Alguns trapos lhe vestem parcialmente o corpo. Uma blusa quadriculada que mal tapa a barriga inchada; uma calça lascada que mal lhe tapam as vergonhas. Logo atrás dessa alminha esquecida pelo capitalismo seu irmão compartilha de seu sofrimento pelos olhos. Seu corpo não parece tão doente, mas sua alma é de irremediavelmente moléstia.
O pai-cadáver, matuto, mestiço; quase pode não se dizer gente – para esse tipo até inventou-se um nome : homem de gabiru. Um ser que se diz humano mas que não se desenvolve como se deve um. Nem em biologia, nem em direitos; Não é um ser, é um fato científico; é uma subespécie; uma perspectiva de direitos; uma probabilidade que nunca se efetivará como ocorrência;
Mais atrás vai o velho. Este ser que já cumpriu seus anos de servidão e agora é apenas um estorvo; um peso morto; Algo cuja existência se resume mais a atrapalhar do que a viver. É magro como a própria fome. As costelas saltam-lhe ao corpo como um detalhe exagerado de uma escultura impressionista.
À esquerda do homem cadavérico segue sua companheira. Com um pequeno serzinho grudado ao pescoço e alguns pertences de cozinha à cabeça, seus pés descalços suportam uma dor maior que o próprio sertão; uma verdadeira Átila, que tem sobre si o céu dos castigos e abaixo o chão dos perdões; É um elo, um pilar, uma existência profana que funde o paraíso ao inferno dentro da profundidade que é a pessoa humana. Seu fardo é carregar o peso de uma vida que já nasce condenada à perpetuação – não da espécie – mas da mísera condição social que faz de toda e qualquer vivência neste lugar chamado Sertão um homicídio com requintes de crueldade.








sábado, 29 de janeiro de 2011

Um Conto da Carochinha (Capítulo I - Continuação)

       As pedras na praia assustam-se com o barulho da queda. Os peixes vêem à beira-mar para ver a grande novidade daquela idílica paisagem. O basalto do passeio lembra de portugueses, holandeses, espanhóis e brasileiros passando por aqueles lados, jamais vira algo parecido: um homem gigante, quase pelado, caido do céu. Não se fala em outra coisa. As pessoas do lugar, claro, nem se dão conta do fantástico acontecimento, pois há muito tempo não têm mais olhos para ver as coisas dos deuses, por mais óbvias que estejam à sua frente.

Tanto é o alvoroço da queda, que logo ali, do outro lado do Humaitá, uma cerimônia que acontece tem de ser interrompida. Exu, que nem gosta de uma confusão, correu para se inteirar do babado. "Eita! Queque tá pegando aqui? Tá perdido é rapaz?" "Colega! Bom te ver. Estava mesmo precisando falar contigo. Desculpe a entrada cinematográfica. Tupã viu meu elmo e pensou ser você, Sei porque disse algumas danações com o seu nome e meteu-me um raio bem no meio do..." "Eita porra... Antes você do que eu. Já falei pra ele que não invadi a terra dele. Eu fui sequestrado." "É Exu, mas acho que o caso, pelo que ouvi, não está irritado com isso. O que você andou aprontando com a filha dele?"" Então Hermes. Diga logo, qualé de mesmo você aqui."
"Você não vai acreditar, cara. Afrodite, minha irmã, inventou de ir conhecer o Oriente Médio. Disse que ia lá passear. Mas todos sabem que o queria mesmo era ver Ares que está na Mesopotâmia, a resolver alguns negócios com umas empresas petrolíferas. Vá lá se ter um amante...hoje em dia, quem é inocente. Mas fazer isso assim, abertamente, sem nem mesmo tentar disfarçar. Sabe que certa feita Thor trincou o cabo de seu martelo e levou para Hefaísto consertar. Em gratidão deu-lhe um elmo usado em batalha pelo próprio Odin. Quando meu pobre cunhado colocou à cabeça o presente e deixou-se ver com aqueles dois chifres de carneiro na testa, toda a Europa caiu-se em gargalhada. A risarada foi tão grande que um vulcão na terra nórdica não se aguentou e explodiu de tanto rir, Não se pôde entrar ou sair de avião do continente por quase um mês." "Pois Hermes, é o que dizem, né - Todo castigo para corno é pouco."
"Mas enfim, quando estava minha irmã a passar pelas margens do Jordão, eis quem que com ela topa - aquele linguarudo do Satanás. E você sabe o que dizem os mortais: nunca dê ouvidos ao Satanás. Porém, você conhece minha irmã, Vaidosa, tirada a conquistas amorosas. Pronto. Juntou-se a fome com a vontade de comer." "É, véi. Esse Diabo não é besta não."
"É, mas você sabe como é este infame - não pode ver nada bem. Foi ele ter com Afrodite. Depois de ganhar lá seus beijos e afagos, o descarado disse a minha irmã que ela sem dúvidas era a mais bela de todo o Olimpo. Mas que tinha ouvido falar de uma terra, além de onde o Sol se põe, em que as deusas têm grandes cabelos pretos como a noite e a pele cor da madeira de oliveira, do pau-brasil e do abeto. Isso foi o suficiente para a doida da minha irmã achar que o Diabo estava a chamar-lhe de feia. A menina voltou imediatamente à Grécia, mandou chamar-me e disse: Hermes, vai aos quatro cantos da terra e avisa que haverá um grande concurso de beleza para saber qual a mais bela deusa de todos os panteões. A vencedora ganhará um ananás de ouro em reconhecimento à sua beleza." "Oxente ómi, e você tá achando isso ruim. Vai dar é mulher bonita."
"É eu sei, o problema é que ela jogou na minhas costas arrumar esse tal concurso de beleza." "Quer saber bróder, Eu vou te dar uma força, Porque se Iara vencer esse concurso, quem sabe Tupã não fica contente e esquece de mim." "Certo, mas tenho um problema: perdi uma de minhas sandálias; Não posso voar.” "Poxa Hermes, eu sou o mensageiro do Orixás, não São Longuinho." "Poxa Exu, nós dois somos os deuses da comunicação, da engenhosidade, da esperteza... e não conseguimos achar uma solução para isso...""Rapais, veja só. Lá em Lauro de Freitas sei de um velha druída que cansou do frio de Stonehenge e se mudou para cá. De repente ela tem uma vassoura voadora lá - e te empreste'' "Poxa Exu, não vai ficar bem eu, um deus grego, andando por aí de vassoura.""Rapais, até parece que grego liga pra isso" "O que!???" "Rapais, veja só, tem um guri que mora por aí; dizem que tudo que some é arte dele. É o saci. Só se agente acha ele e dá um sacode pra ver se ele sabe de sua sandália" "Tá bem, e onde a gente encontra esse Saci." "Ele mora no vento. Ouvi dizer que em Santo Amaro tem uma encruzilhada que passa um rio. Que todo dia, quando o sabiá pia, ele gosta de ir lá beber a água do riacho""Então vamos lá. Deixa eu subir na suas costas""Ô seu Hermes, eu sou negão. Nada de subir nas minhas costas não. Vamo de Ferry Boat. Sabe que inventaram de construir um tal de metrô em Salvador, que até hoje não ficou pronto. Tem mais de vinte anos que a o projeto tá no papel. Só de obra já tem dez. Só para castigar essa cambada de político safado, você precisa ver a empresa que eu botei pra tomar conta do Ferry Boat. Nem aquele seu amigo Satanás faz coisa pior."
Com o Sol já quase a se esconder por trás da ilha, a garota que descansa sentada ao farol confere as horas. Precisa ir trabalhar no dia seguinte. Levanta-se e caminha. Ao dar a volta na igreja para tomar o rumo do Bonfim, cruza com a outra garota e pensa "Bem bonita ela. Queria ter um cabelo desses; Queria ser bela.” Hermes e Exú se escondem atrás de uma pedra e tomam forma de gente. O grego, alto, nariz grande, não muito forte, mas com músculos trabalhados, cabelos louros e encaracolados; O africano, estatura média, não é o que poderia se chamar de malhado, mas um corpo ágil como um bom capoeira. Lá partem os dois para duas odisséias: primeiramente, conseguir embarcar no Ferry Boat; segundamente, achar o Saci em Santo Amaro da Purificação.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Um Conto da Carochinha - Capítulo I (nova versão)

     Uma garota senta e observa o mundo fluir. Vê as pessoas à beira do mar. Vê as ondas levando e trazendo a espuma branca. Ao longe os corsários como plumas ao vento, sobem e descem, e sobem de novo. No horizonte o eterno encontro de dois amantes - tão certo quanto o tempo que passa ou  a chuva que não cai no sertão - recolhe a ilha em seu seio o Sol ardente de janeiro. O farol do Humaitá, eterna testemunha da estória de amor entre céu e mar, acena aos navios que passam cheios petróleo, gás, chumbo e outras dessas coisas que matam e dão vida, rumo ao porto de Aratu.
     A brisa leve que sopra do mar assanha os caracóis da garota. Toda essa paisagem relaxa e acalma. As nuvens espalham a luz em um tipo de arte que só mesmo a natureza seria capaz de fazer. Todas as matizes de vermelho, amarelo, magenta, laranja. A água para completar reflete tudo isso com um ar de pintura impressionista: ao óleo sobre tela tem-se milagre sobre o mar.
     Apesar de toda a paz e toda a tranquilidade que inspira um lugar como este, a menina está cansada. Algo lhe acontece. Algo que lhe toca profundamente. Sereia-Iara, tem em seu brilhar o próprio mito das três raças do Brasil. Sua face açoriana tão bela e rebuscada como a da própria deusa do amor, dos piratas e dos artistas: é ternura o que brilha em seus olhos, é paixão o que tempera seus lábios. Seu corpo é maravilha - instrumento musical esculpido por um desses deuses que morreu de tanto amor. Sua voz é melodia que soa dos ventos ao cruzar os vales e das águas ao cruzar os rios. Seu perfume não é cheiro - é aroma, e os seus pés são asas que levitam sobre a rua. Sua tez, de ébano, recobre como um manto sagrado suas áureas proporções  - mais parecem uma pintura de Da Vinci ou Manet, do que uma pessoa realmente de carne e osso. Tão belas são as imperfeições - e as outras coisas humanas da moça - que alí, sentada à mureta, ao lado do faro, confude-se com o próprio milagre diluído ao mar. 
      Do outro lado da igreja parcialmente desabada, mais à sombra do que ao por do sol, outra moça se lança aos olhos de admiradores indiscretos. Tão confiante e cheia de si. Alva donzela de doce brancura. Formosa, vaidosa, carrega em seu séquito sempre um rapaz, uma atenção e um espelho. Por onde passa leva os olhares e deixa os suspiros e seu cheiro. Não olha o sol, nem mesmo a ilha - e não tem tempo de perceber como é belo o universo que lhe cerca. Distraída está, admirando-se e sendo admirada. Bobos, tolos rapazes cortejam a moça - bela sim, realmente, como poucas que por essas bandas há. Largas ancas, e seios fenomenais. Rosto pueril, sorriso um tanto quanto... safadinho. Seus olhos são como um gênio prometendo realizar três desejos - e nada mais.
       Duas garotas. Duas beldades. De um lado a beleza esteriotipada do cinema e dos contos de fada; Do outro uma moça que resolveu descançar,  não chama a atenção,  Mais parece uma flor que nasceu e ali ficou. 
       Qual a mais bela - seria de se perguntar, A deusa esculturada no seio das metrópoles colonialistas, por mestres da renascença e poetas românticos loucos deprimidos; Ou a descolonizada garota, que de testemunha da sua formosura só tem aos céu, ao mar e a uns poucos pombos que ciscam ali por perto;
      Eis que para-se o tempo, um estrondo se houve e das nuvens como uma flecha surge algo que cai do céu. Quica no mar como uma pedra atirada ao lago e para à beira da praia. Envolto de poeira e mistério, surge a silhueta de um homem. Mas não um homem qualquer. Aparentando ter uns três ou três metros e meio de altura. Seus músculos são tão bem trabalhados que parecem esculpidos pelas mãos de algum mestre de arte. Os olhos são de um azul tão intenso que parecem refletir o próprio céu. Seu cabelo encaracolado é de um dourado tão puro que se poderia dizer que são fios de ouro. Traz à cabeça um elmo e à mão direita um cetro de platina. Ao longo do cetro duas cobras enroladas exalam um aroma capaz de curar o mais desgraçado dos leprosos com um simples tocar. Uma túnica tão alva que parece feita de nuvens lhe cobre metade do tronco e lhe tapa as vergonhas. Um dos pés descalços - uma de suas sandálias aladas soltara-se na queda.




quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A rua

Um tanto quanto confuso, angustiado, perdido pelo tempo louco desse mundo insano e virtual, estava em um jardim público - um desses lugares onde se cultivam ladrões e de vez em quando topamos com alguma planta.  Pensava com algumas nuvens, como esse mundo desequilibrado nos torna coisas.... coisas cada vez mais pequenas, insignificantes e substituíveis. E pensava também sobre como o mundo consegue fazer justamente nos convencendo do contrário - de que somos indivíduos, que nossa individualidade é mais importante que tudo e que a verdadeira liberdade é poder escolher - mesmo que essa escolha fique limitada apenas àquela opção que o mundo te dá: ou seja - somos livres para escolher, mas não nos dão opção.
Um pássaro - na verdade um filhote - em rompante caiu em mim, Pobrezinho... estava a aprender a voar... e não passou na prova da seleção natural. Isso, por um momento, desviou minha atenção sobre o que divagava. Fiquei atônito. Não é todo dia que se vê algo assim. Um pássaro - que não sabe voar, É como um gato que não cai em pé ou um cachorro que não esconde o osso. É diferente. É assustador, Pois nos lembra que a natureza tem das suas surpresas e das suas imprevisibilidades, e que por mais segurança e mais direito que tenhamos, pode a natureza desfazer de tudo que conhecemos em um piscar de olhos.
 Nossos pensamentos são uma coisa curiosa. É como uma reação química. Um reagente encontra o outro, A reação começa, Um novo produto se forma, A coisa toda aumenta a velocidade, Surge um catalizador, A reação acelera, Quando percebemos tudo que era ácido e base passa a ser água e sal e ... pinba. A natureza é transformada. Mas não deixa de ser natureza... jamais. E assim é o pensamento. Muda, se transforma, interpreta e se reinterpreta e reconstrói-se a cada interpretação nova... mas se o pensamento é de ácido e de base, jamais será outra coisa senão água e sal.
Passado os átomos do pássaro que finalmente voara, as nuvens não estavam mais em seu lugar. Roubaram as nuvens, pensei. Não é possível - roubam-se humanos, roubam-se vidas, roubam-se sonhos... e agora roubam-se as nuvens. Até as nuvens. Elas, que são feitas de algodão e se desmancham ao tocar. Elas que de tão frias embranquecem o chão quando o tocam e nascem a plantas quando chovem; 
Sem pássaro, sem nuvens e se opções, passei a olhar a rua. É interessante observar um espaço público. É possível ver de tudo. Uma grávida com um bebê de colo, segurando uma criança com a outra mão - e mais uma acompanhando-a de perto. E a gente se pergunta - e o controle de natalidade, quer dizer, proibir - ou "convencer" os pobres que eles não devem ter filhos, para que o estado tenha menos gastos (ou menos desculpas para justificar gastos que se são feitos, com os pobres que não o são), para que se tenham menos programas sociais, para que o Estado gaste mais dinheiro financiando grandes empresas a fundos perdidos, para que os ricos possam ter apenas um ou dois filhos que estudarão de graça em uma universidade pública, assim pode sobrar mais dinheiro para manter elevado o padrão de vida,  porque terão menos gastos como a licença maternidade dada àquela moça - pela sexta ou sétima vez. Ufa... Certa vez uma professora explicou-me um trabalho no qual ela estudava algumas pessoas aqui de Salvador que conseguiram cidadania e inclusão social - entenda-se atenção-do-governo -   simplesmente se contaminando com CIDA. ("se"em próclise, como na oralidade, para dar ênfase ao reflexivo do pronome - a ação partiu voluntariamente do sujeito). Porque essas coisas não me surpreendem mais...
  Ainda parado no jardim a observar a rua, me dei conta de como as pessoas andam apressadas, enraivadas, estressadas. Um sinal latente da loucura coletiva em que nós nos metemos. A essa loucura um tal inglês de nome que não me recordo agora chamou de Contrato Social. Pode imaginar uma coisa dessas: um monte de gente junta vivendo em completa baderna. Um dia acordam. É um dia de verão - claro, porque as pessoas na Europa, sobretudo nessas épocas míticas sem tecnologia, provavelmente não tenham muito ânimo para sair aí às ruas, a deliberar inventar novas formas de governo. Um dia esses tais europeus saem às ruas - olha a importância das ruas - e dizem: "ó monarca, governe-nos. Seja nosso líder. Nós prometemos viver em paz e harmonia - e você promete nos guiar pelos augúrios de um mundo cão, sendo nosso senhor e nosso mestre sábio e justo". Realmente, alguém acredita nisso.
    Ainda olhando lembrei de um outro rapaz, cujo o nome não me lembro também. Mas por ser francês aposto que se chama Jean. Todos os países têm lá seus nomes comuns e representativos. Como Portugal tem seus Manés e o Maranhão seus Ribamares, a França tem lá seus Jeans e seus Jaques. Seja Jean ou Jaques, russo sei que não era, pois era francês - e disso tenho certeza. Esse era dos meus camaradas, pois ele disse uma coisa interessante: "ninguém percebe a loucura que é esse negócio de propriedade, um dia alguém disse 'Éssa é minha propriedade' e os demais aceitaram." Pois digo a mesma coisa - ninguém percebe, um dia disseram 'Esses são meus seres humanos', O que fizemos: assinamos um contrato. Quer dizer, eu mesmo não assinei nada, nem o senhor Paulo Maluf. Quem mostrar nossas assinaturas nesse tal de Contrato Social, está mentido. São assinaturas falsas.
      Incrível pensar que tudo isso - toda essa reflexão - surgiu de uma tarde olhando a rua. Uma simples via, que pode ser a minha, que pode ser a sua - ou a de qualquer um. Entristece apenas a alma do cantor apaixonado que todas as reflexões sobre sua amada -os cabelos brilhosos e olhar petrificante de medusa, a pele tão macia, de pêssego, de seda, e cheiro de beleza que transmite o a ternura da mais bela flor do mais formoso pé de maracujá que se encontra no cerrado - todas essas constatações são inúteis - pois não são científicas. O amor, tal como a rua, não é uma fonte fidedigna.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O Estardalhaço

       É outono. A Terra se prepara para mudar os passos da sua dança cósmica através da infinitamente pequena fração de espaço a que lhe chamam órbita. Sem pressa, mas também sem preguiça - até mesmo porque não é dado a planetas terem sentimentos humanos. Vagarosamente o calor se despede, levado pelas aves migratórias para terras longínquas e exóticas, as quais apenas aos pássaros e aos loucos é dado o direito de visitar. O vento antes quente e úmido sopra agora frio e seco, comprovando que nem apenas aos rios vale a astuta conclusão de Parmênidesde de Eléia: “não é possível ser soprado duas vezes pelo mesmo vento” - diria o velho obscuro.
É tarde. Não tarde de estar tarde, mas tarde de estar à tarde, após ao meio-dia. A luz do Sol se confunde com as nuvens como se Deus estivesse a investigar alguns matizes de cor para os novos mundos que por ventura venha construir. Se fosse possível caminharmos sobre esse momento como um pequeno lagarto o faz pela superfície da água, veríamos o tempo retorcer-se tentando não passar. Por algum motivo essa tarde preguiçosa insiste em ser domingo.
Ao longo do horizonte a única garantia que ainda existe céu e mar e que o mundo não se acabou em aquarela é uma linha tênue de terra que os separa. Às vezes lembrando a barriga de um bêbado deitado, as vezes sumindo, como se mergulhasse nas águas, a silhueta das ilhas e penínsulas ao longe citam em seu rodapé uma série de mitos onde, de uma forma ou de outra, uma serpente sempre acaba engolindo a própria cauda.
A essa altura os leitores mais preocupados com a sexologia de serafins e querubins poderiam alegar ser demasiadamente europeu este cenário traçado sem muito pudor tropical. Ora, qualquer um com um pouco de estudo nas artes da geografia, geofísica ou meteorologia poderia constatar que o clima mediterrâneo pode ser encontrado no Chile, na África do Sul e até no sul da Austrália. Mas é certo que, independentemente da ordem artificial das coisas, tal qual a noite precede o dia; ou ainda da desordem natural das coisas, incerta como as partículas subatômicas que constituem a base de tudo que é ou que será, por que não é o cenário demasiadamente chileno que se encontra à orla do lago romano.
O chão mais próximo, de calçada e asfalto, se perde nas montanhas ao fundo. A impressão que dá lembra as asas daquela grande serpente, antes que Deus tivesse a chance de cortá-las. Em formato de baía, como que se abocanha-se o espelho do céu no mar, parece fazer da imensidão do oceano apenas um pequeno lago laranja e azul. A expressão “lago romano” nunca pareceu tão justa.
Como se tudo isso não existisse - e de fato não existe, considerando o conceito de realidade que a maioria das pessoas teima em acreditar - uma estrutura de madeira que em nada lembra as árvores que fora um dia, é deitada implacável e impassível. Não dá a mínima importância para a paisagem construída com tanto trabalho conjunto do Deus que a tudo dá causa, do escritor que tudo descreve e do leitor que a tudo interpreta. Sem dúvidas é uma estrutura má.
Por que deveria então este narrador deter-se a descrever, elucubrar enlindecer esse amontoado de madeira putrefada, que nem fruto imediato da natureza é. Ora, um cais, que nada mais é do que uma ponte órfã de margem, podre pelo tempo, abrigo de seres repugnantes e escrotos, que existe sem dar a mínima atenção à paisagem, às pessoas ou às coisas boas da vida. Não come churrasco, não bebe cerveja. Nunca se preocupa em saber o nome e a idade daqueles que a visitam. Quantos suicidas teve a chance de salvar, Quantos casais pôde ter ajuntado, sem o fazer; Quantas rimas pobres poderia ter salvor se soprasse no ouvido dos poetas alguma verdade sobre a mediocridade humana. Para que se deter mais em algo que poderia ser a mais revolucionária das estruturas deste mundo, mas contenta-se em ser pisada, comida e decomposta.
Não tão lindos quanto a paisagem, ou tão laranja quanto o mar, nem tão migratório quanto as aves - que a essa altura já cruzam a linha do equador - um par, que para efeitos de lirismo é pressuposto por casal - retorna de sua tarde romântica à beira do cais. Não dizem nada, pois estão inebriados pela endorfina e pela serotonina liberadas durante os longos e ardentes beijos. Estão naquele estado de espírito compartilhado e compreendido por drogados, chocólatras e atletas profissionais. Se bem verdade que, se em tempos remotos esse mesmo estado mental fora cantado e venerado em trovas romanescas, hoje é tão banal - vendido diluído em líquido preto e travestido pelo amor a tudo isso - que as pessoas realmente acreditam que a falta desse sentimento inebriante é sede e fome, e se empanturram de açúcar, gordura e outras coisas misteriosas disfarçadas por rótulos vermelhos e embalagens bem boladas. Por querer demais o prazer, o ser humano esquece-se do sagrado valor do sofrimento - e por isso engorda - de medo.
O mais deplorável de toda a cena, contudo, não são os vermes da madeira podre, tão pouco a própria madeira podre - que já deduzimos ser uma madeira má; Esta poderia, se falasse, argumentar que não pensa. Se não pensa, logo não existe. Se não existe, não pode apreciar a paisagem, acreditar em Deus ou anunciar a mediocridade do mundo. Como bons cartesianos, a nós caberíamos aceitar esses argumentos da madeira. Se não pensa como pode existir, se não existe, como pode fazer coisas que pressupões um estado de existência. Ainda que pisada, comida e putrefada - como a realidade social frente ao direito - teríamos que admitir - como os juízes: é verdade, não existe.
O mais ignóbil e vil estado de toda a cena é daquele casal. Satisfeita a lascívia dos pombinhos, não precisam mais olhar os lírios dos campos, estes já cumpriram o seu papel, Já podem virar adubo na fazenda de porcos mais próxima. A paisagem nem lhes interessa. O sol nasce e se põe incansavelmente há bilhões de anos - e por mais bilhões o fará - sempre fazendo seu papel de cupido às mais bizarras criaturas que já por aqui passaram. Cumprido seu papel, que vá cuidar de fazer lá suas fotossínteses - pois após o sexo sente-se fome e precisa-se comer; ou fumar. A ponte - nem perceberam que é um cais - que caia, que mate afogados todos os escrotos seres que dela vivem; Até Deus tem sua parcela de desprezo e volta e meia precisa lançar mão de alguns infortúnios para lembrar ao casal quem é que manda. Um enrosco financeiro aqui, uma enchente ali, e tome-lhe o povo a rezar.
O casal da cena, ao contrário do vil aglomerado de madeira, pensa, e não pode usar-se da exeptio non cartesius para defender-se. Afinal pensam. Logo existem. Se existem, podem fazer coisas que apenas aos existentes é dado - obedecer. Não lhes é dado o direito de serem ignorados pela lei - tais como o cais e a realidade social, O casal existe e isto basta. E tudo o que é podre, que é escroto e habitado por vermes naquele cais não existe. É tudo o próprio casal, tentando encontrar num cais que não existe as madeiras podres e os vermes sobre os quais tiveram de caminhar.
Até agora a imaginação deste autor trabalha dentro de uma gama de possibilidades reais. Seja os pássaros, a tarde de outono, o casal egoísta ou as montanhas ao horizonte. Contudo um questionamento urge a esta altura, para que serve a arte se esta limitar-se ao possível e provável. Certa vez um grande sábio - e o digo sábio porque, independente do que tenha feito em vida toda, por um único dia de anamnese regional, disse em uma frase o que quinhentos anos de cultura não foram capazes de cunhar: “pense em um absurdo, na Bahia há um precedente”. Nada mais verídico.
Neste salmo digno de um messias está resumida toda a ideia de arte: há tantas pessoas no mundo ,e na Bahia, tantas já houveram e tantas haverão, que se a arte limitar-se ao provável e ao possível, não precisaremos mais de pessoas que criem, que escrevam, que sonhem. Basta recolher alguns causos pelo mundo afora. As coisas mais absurdas serão descritas, de tal forma que quando ocorrem em um meio que não a vida real, levantam da plateia um suspiro - “só em cinema mesmo...”
Neste ponto do onanismo literário surge um ser. Pode ser um viajante intergaláctico. Perdido, Que parou para pedir informação. Por favor senhor, qual alinhamento é o mais favorável para seguir à alfa do centauro; é claro que se um ser de outro planeta fosse tão inteligente ao ponto de chegar à Terra, seria também inteligente de aqui não ficar; nem parar para pedir informação. É sabido que os comentários que circula por aí nos microblogs intergalácticos que a Terra em nossa galáxia é como aquela rua perigosa na periferia da cidade: se tiver que passar por lá, não o faça à noite; se o fizer, não se perca; se perder-se não pare para pedir informação; tente fazer o caminho de volta, ou tente achar a avenida principal e saia de lá - vivo.
Descartado por dedução o visitante extraneus, outra opção é considerar o estranho um espírito que se materializa. Esta opção é tentadora. A julgar pelas característica do ser que surge: cinza, sem expressões, sem falas e sem pés - é uma alma penada. Contudo, tão inverossímil quanto a dedução anterior esta é. Pois é óbvio. Diz a sabedoria popular, por muitas vezes superior à ciência e à religião, que vaso ruim não quebra. Hipótese esta que pode ser comprovada pela vida dos grandes políticos desse país. Internações atrás de internações, os velhos dinossauros se mantém firmes e fortes na coxia do teatro político, por vezes algum vai ter com São Pedro. Mas sempre sobram aqueles velhos MacLeods da ditadura militar, invencíveis, impassíveis. Quando ocorrem de padecer por qualquer praga humana, deixam em seu lugar filhos e - sobretudo - Neto, alguns projetos de pequenos caudilhos que, para nossa sorte, aparentam poucas chances de se concretizar.
Uma vez constatado que os piores herdam dos bons esse País, porque estes têm maiores chances de empacotar, E pessoas boas não têm motivos para ser tornarem almas penadas. Mais uma vez a lógica do não-perdi-nada-lá é aplicável. Uma vez no céu, realizado junto a Deus, Buda, Cristo ou enebriado por dez mil virgens, o que um espírito tem a fazer na Terra; Já atormentado por uma vida de filas em bancos, impostos, violência e programação dominical na televisão, é pouco provável que um ido deste mundo venha procurar alguma sarna entre os pobres mortais.
A narrativa continua sua jornada por entre letras e palavras, rumo ao lugar nenhum dos textos escritos, lidos e esquecidos. E num mundo cada vez mais dinâmico, onde as pessoas mal tem tempo para sentirem e/ou demonstrarem afetos e gentilezas para com seus familiares, amigos e mendigos - bem verdade que essa regra não se aplica para com os animais domésticos - estes escritos clamam por um final breve e sensacional, que deixe a impressão de que esta maçante leitura de quinze minutos tenha valido mais do uma mensagem dessas de auto ajuda que chegam por e-mail.
Com o fim se aproximando e sem mais alternativas que expliquem esse ser horrorizado que surge em uma cena que parece bela, o que resta senão cogitar. Um leitor atento e conhecedor das artes pode facilmente perceber que toda a cena até aqui tão bem planejada, idílica, só pode ser fruto do trabalho de um gênio. E este é um norueguês, expressionista, pintor. O que se passou na cabeça do senhor Munch ao colocar um ser que de tão horrorizado causa horror, em uma bela tarde que aparenta ser de outono, sobre um cais que aparenta ser de boa madeira, frente a um casal que aparenta ser apaixonado, não se pode dizer. Pode-se cogitar. E como a sabedoria dos romanos nos ensina, não pode a lei punir a cogitação. Cogitar sobre obra alheia, resta dizer, não é crime.
O que faz o homem que grita então. Grita. Mas por que. Talvez o grito seja de medo, de horror, de tédio. De espanto. ou de pudor. De medo da guerra, da tecnologia, dos seres sem tempo e sem alma que estamos nos tornando. Cada vez menos parecidos com o belo cais de madeira podre ou com o céu de aquarela refletido ao mar, cada vez mais semelhantes com a forma humanoide que grita sem nem saber porque.
A obra de um gênio expressionista é genial e é expressionista, não porque é uma obra de arte, mas porque é uma obra de expressão. A verdadeira matéria prima de homens como o senhor Munch não é a tinta ou a tela - é a expressão. A pintura é só um meio. O verdadeiro resultado final é o que sente o expectador. Tomemos emprestado a genialidade do pintor para encerrar essas linhas com algo que na poesia seria uma chave de ouro.
Este ser é você, leitor, ao terminar este texto, que lhe roubou quinze preciosos minutos, Esperando uma moral de nove e noventa e nove. Queria poder ver sua expressão aos descobrir que a narrativa termina como começou, sem mais nem menos, como um lagarto caminhando sobre as linhas da realidade, em um raro momento em que se pode sentir como é tentar parar o tempo. 


P.S. - Aproveite o anonimato da internet, agora que você está sozinho, na frente do seu computador, relaxado - se solte, descontraia -  bote as mãos na cara e dê um grito, como esse cara aí. Solte seu stress!!!!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011


Se o ser humano fosse mesmo um ser racional, nós faríamos conta de m4tem4t1c4 enquanto dormíssemos
mas em vez disso, nós sonhamos

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Rupestre


Em uma época remota, antes mesmo que houvesse tempo ou espaço, em que o céu era apenas o que está acima e a terra o que está abaixo, um pequeno bando de animais se prepara para a caça. Cerca de oito deles vão à frente. Um tanto magros - alguns esqueléticos, porém com anatomia bem definida. Pelos por todos os lados: devem ser machos. Um tanto mais afastados, agachados na vegetação, um segundo grupo, algo em torno de 20 cabeças, aguardam o desfecho da cena. Provavelmente é o resto do bando.

Seria uma cena corriqueira, quase que um fato natural, desses que se vê todos os dias em um desses canais de TV fechada, se não fosse um detalhe: aqueles animais, que se destacam na paisagem por terem suas cabeças acima da linha da vegetação, levam em suas patas coisas que não parecem naturais. São madeira e crina, e sisal; e ossos. Mas não têm a forma que a natureza lhes deu originalmente. Dentes de peixes e caninos fora de bocas; madeira curva em vez de reta; com tripas em vez de folhas. Definitivamente aquilo não é natural. Fora cosido ao fogo, trançado, atado, amarrado. Pontas afiadas por milhões de anos de seleção natural se confundem com pedras toscas, trabalhadas por algumas horas de lapidação.

Na orla de um pequeno lago um grupo de cervos está. Mamãe cervo dá leite aos seus filhos. Papai cervo com suas galhas exuberantes vigia a retaguarda do grupo. Porém nem seus olhos atentos ou seu ouvido ultra-sensível é capaz de perceber o bando de bestas que se aproximam pelo flanco esquerdo, onde a camuflagem feita de sangue, sementes e carvão se confunde com a vegetação densa.

Pressentindo o perigo, o líder do grupo faz sinal para que os demais se apressem. Afinal, um lago é uma zona de concentração. Muitos animais vão ali para beber água. E nem todos são inofensivos comedores de arbustos.

O grupo se prepara para seguir viagem. Papai cervo se aproxima dos seus. Como um bloco, ou um exército, todos os membros se movem para no sentido de estabelecer uma formação coesa, deixando as fêmeas e filhotes no centro, os machos mais vigorosos nos flancos e os mais velhos e fracos atrás para que, em caso de necessidade, façam o derradeiro sacrifício em nome da sobrevivência do grupo.

Assim que estão todos prontos para partir, tendo às suas frentes a imensidão do mundo e às costas a beleza do sol a cair no lago, um raio atravessa o ar, zunindo. Um grunhindo agudo, vazio. Mais uma alma que escapa de um corpo do que o ar a move-se pela boca, o som da morte irrompe naquele momento familiar. Assustados, sem nada entender, fêmeas e filhotes são atordoados pela imagem do líder morto diante de seus pés. Sem liderança não sabem para onde correr. O inimigo está à frente. Não, à esquerda. Está por todos os lados. Um barulho ensurdecedor, um misto de grito, grunhido e gemido. Algo indescritível. Se conhecessem um deus, diriam os cervos se tratar dos próprios demônios a prenunciar o fim de tudo.

O grupo sem líder é uma turba ensandecida. Sem direção, travados pelas árvores de longas raízes que do lago sobrevivem de um lado; à frente têm corpos caídos e sem vida; acuados por uma saraivada de flechas malditas que matam aos que tocam.

Correm sem nem mais saber por quê. Correm por suas vidas. Correm por sobrevivência. Correm para o único lugar que podem. Correm para o por do Sol. Correm para a morte. Correm até suas patas não tocar mais o chão e suas narinas não mais tocar o ar. Mortos os velhos pisoteados, as mães vêm seus filhos afundar nas águas. Desesperadas, desejam a morte. Prontamente o pedido é atendido por famintos seres lacustres. Crocodilos e piranhas, atraídos pela agitação da água, cumprem a árdua tarefa da selvagem natureza em preservar o mundo para os mais aptos.

O Sol se põe com a vida daqueles cervos e o bando de bestas vai regozijar-se da boa caça. Recolhem o que podem carregar e deixam o resto para o ciclo da vida transformar em novos seres. Satisfeitos, recolhem-se ao aconchego de uma rocha, ainda quente pelo Sol. Partilham o fruto. Os mais fortes ficam com as partes mais gordurosas e nutritivas. Os filhotes apenas podem comer língua, testículos e vísceras, se as fêmeas não o fizerem.

Pouco a pouco a comida se acaba. O fogo se esvai. Amontoados, as bestas aproveitam o calor da rocha para aconchegar-se no seio da terra. A noite avança e os bichos dormem.