sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Um Conto da Carochinha - Capítulo I (nova versão)

     Uma garota senta e observa o mundo fluir. Vê as pessoas à beira do mar. Vê as ondas levando e trazendo a espuma branca. Ao longe os corsários como plumas ao vento, sobem e descem, e sobem de novo. No horizonte o eterno encontro de dois amantes - tão certo quanto o tempo que passa ou  a chuva que não cai no sertão - recolhe a ilha em seu seio o Sol ardente de janeiro. O farol do Humaitá, eterna testemunha da estória de amor entre céu e mar, acena aos navios que passam cheios petróleo, gás, chumbo e outras dessas coisas que matam e dão vida, rumo ao porto de Aratu.
     A brisa leve que sopra do mar assanha os caracóis da garota. Toda essa paisagem relaxa e acalma. As nuvens espalham a luz em um tipo de arte que só mesmo a natureza seria capaz de fazer. Todas as matizes de vermelho, amarelo, magenta, laranja. A água para completar reflete tudo isso com um ar de pintura impressionista: ao óleo sobre tela tem-se milagre sobre o mar.
     Apesar de toda a paz e toda a tranquilidade que inspira um lugar como este, a menina está cansada. Algo lhe acontece. Algo que lhe toca profundamente. Sereia-Iara, tem em seu brilhar o próprio mito das três raças do Brasil. Sua face açoriana tão bela e rebuscada como a da própria deusa do amor, dos piratas e dos artistas: é ternura o que brilha em seus olhos, é paixão o que tempera seus lábios. Seu corpo é maravilha - instrumento musical esculpido por um desses deuses que morreu de tanto amor. Sua voz é melodia que soa dos ventos ao cruzar os vales e das águas ao cruzar os rios. Seu perfume não é cheiro - é aroma, e os seus pés são asas que levitam sobre a rua. Sua tez, de ébano, recobre como um manto sagrado suas áureas proporções  - mais parecem uma pintura de Da Vinci ou Manet, do que uma pessoa realmente de carne e osso. Tão belas são as imperfeições - e as outras coisas humanas da moça - que alí, sentada à mureta, ao lado do faro, confude-se com o próprio milagre diluído ao mar. 
      Do outro lado da igreja parcialmente desabada, mais à sombra do que ao por do sol, outra moça se lança aos olhos de admiradores indiscretos. Tão confiante e cheia de si. Alva donzela de doce brancura. Formosa, vaidosa, carrega em seu séquito sempre um rapaz, uma atenção e um espelho. Por onde passa leva os olhares e deixa os suspiros e seu cheiro. Não olha o sol, nem mesmo a ilha - e não tem tempo de perceber como é belo o universo que lhe cerca. Distraída está, admirando-se e sendo admirada. Bobos, tolos rapazes cortejam a moça - bela sim, realmente, como poucas que por essas bandas há. Largas ancas, e seios fenomenais. Rosto pueril, sorriso um tanto quanto... safadinho. Seus olhos são como um gênio prometendo realizar três desejos - e nada mais.
       Duas garotas. Duas beldades. De um lado a beleza esteriotipada do cinema e dos contos de fada; Do outro uma moça que resolveu descançar,  não chama a atenção,  Mais parece uma flor que nasceu e ali ficou. 
       Qual a mais bela - seria de se perguntar, A deusa esculturada no seio das metrópoles colonialistas, por mestres da renascença e poetas românticos loucos deprimidos; Ou a descolonizada garota, que de testemunha da sua formosura só tem aos céu, ao mar e a uns poucos pombos que ciscam ali por perto;
      Eis que para-se o tempo, um estrondo se houve e das nuvens como uma flecha surge algo que cai do céu. Quica no mar como uma pedra atirada ao lago e para à beira da praia. Envolto de poeira e mistério, surge a silhueta de um homem. Mas não um homem qualquer. Aparentando ter uns três ou três metros e meio de altura. Seus músculos são tão bem trabalhados que parecem esculpidos pelas mãos de algum mestre de arte. Os olhos são de um azul tão intenso que parecem refletir o próprio céu. Seu cabelo encaracolado é de um dourado tão puro que se poderia dizer que são fios de ouro. Traz à cabeça um elmo e à mão direita um cetro de platina. Ao longo do cetro duas cobras enroladas exalam um aroma capaz de curar o mais desgraçado dos leprosos com um simples tocar. Uma túnica tão alva que parece feita de nuvens lhe cobre metade do tronco e lhe tapa as vergonhas. Um dos pés descalços - uma de suas sandálias aladas soltara-se na queda.




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