segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Rupestre


Em uma época remota, antes mesmo que houvesse tempo ou espaço, em que o céu era apenas o que está acima e a terra o que está abaixo, um pequeno bando de animais se prepara para a caça. Cerca de oito deles vão à frente. Um tanto magros - alguns esqueléticos, porém com anatomia bem definida. Pelos por todos os lados: devem ser machos. Um tanto mais afastados, agachados na vegetação, um segundo grupo, algo em torno de 20 cabeças, aguardam o desfecho da cena. Provavelmente é o resto do bando.

Seria uma cena corriqueira, quase que um fato natural, desses que se vê todos os dias em um desses canais de TV fechada, se não fosse um detalhe: aqueles animais, que se destacam na paisagem por terem suas cabeças acima da linha da vegetação, levam em suas patas coisas que não parecem naturais. São madeira e crina, e sisal; e ossos. Mas não têm a forma que a natureza lhes deu originalmente. Dentes de peixes e caninos fora de bocas; madeira curva em vez de reta; com tripas em vez de folhas. Definitivamente aquilo não é natural. Fora cosido ao fogo, trançado, atado, amarrado. Pontas afiadas por milhões de anos de seleção natural se confundem com pedras toscas, trabalhadas por algumas horas de lapidação.

Na orla de um pequeno lago um grupo de cervos está. Mamãe cervo dá leite aos seus filhos. Papai cervo com suas galhas exuberantes vigia a retaguarda do grupo. Porém nem seus olhos atentos ou seu ouvido ultra-sensível é capaz de perceber o bando de bestas que se aproximam pelo flanco esquerdo, onde a camuflagem feita de sangue, sementes e carvão se confunde com a vegetação densa.

Pressentindo o perigo, o líder do grupo faz sinal para que os demais se apressem. Afinal, um lago é uma zona de concentração. Muitos animais vão ali para beber água. E nem todos são inofensivos comedores de arbustos.

O grupo se prepara para seguir viagem. Papai cervo se aproxima dos seus. Como um bloco, ou um exército, todos os membros se movem para no sentido de estabelecer uma formação coesa, deixando as fêmeas e filhotes no centro, os machos mais vigorosos nos flancos e os mais velhos e fracos atrás para que, em caso de necessidade, façam o derradeiro sacrifício em nome da sobrevivência do grupo.

Assim que estão todos prontos para partir, tendo às suas frentes a imensidão do mundo e às costas a beleza do sol a cair no lago, um raio atravessa o ar, zunindo. Um grunhindo agudo, vazio. Mais uma alma que escapa de um corpo do que o ar a move-se pela boca, o som da morte irrompe naquele momento familiar. Assustados, sem nada entender, fêmeas e filhotes são atordoados pela imagem do líder morto diante de seus pés. Sem liderança não sabem para onde correr. O inimigo está à frente. Não, à esquerda. Está por todos os lados. Um barulho ensurdecedor, um misto de grito, grunhido e gemido. Algo indescritível. Se conhecessem um deus, diriam os cervos se tratar dos próprios demônios a prenunciar o fim de tudo.

O grupo sem líder é uma turba ensandecida. Sem direção, travados pelas árvores de longas raízes que do lago sobrevivem de um lado; à frente têm corpos caídos e sem vida; acuados por uma saraivada de flechas malditas que matam aos que tocam.

Correm sem nem mais saber por quê. Correm por suas vidas. Correm por sobrevivência. Correm para o único lugar que podem. Correm para o por do Sol. Correm para a morte. Correm até suas patas não tocar mais o chão e suas narinas não mais tocar o ar. Mortos os velhos pisoteados, as mães vêm seus filhos afundar nas águas. Desesperadas, desejam a morte. Prontamente o pedido é atendido por famintos seres lacustres. Crocodilos e piranhas, atraídos pela agitação da água, cumprem a árdua tarefa da selvagem natureza em preservar o mundo para os mais aptos.

O Sol se põe com a vida daqueles cervos e o bando de bestas vai regozijar-se da boa caça. Recolhem o que podem carregar e deixam o resto para o ciclo da vida transformar em novos seres. Satisfeitos, recolhem-se ao aconchego de uma rocha, ainda quente pelo Sol. Partilham o fruto. Os mais fortes ficam com as partes mais gordurosas e nutritivas. Os filhotes apenas podem comer língua, testículos e vísceras, se as fêmeas não o fizerem.

Pouco a pouco a comida se acaba. O fogo se esvai. Amontoados, as bestas aproveitam o calor da rocha para aconchegar-se no seio da terra. A noite avança e os bichos dormem.

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