sábado, 29 de janeiro de 2011

Um Conto da Carochinha (Capítulo I - Continuação)

       As pedras na praia assustam-se com o barulho da queda. Os peixes vêem à beira-mar para ver a grande novidade daquela idílica paisagem. O basalto do passeio lembra de portugueses, holandeses, espanhóis e brasileiros passando por aqueles lados, jamais vira algo parecido: um homem gigante, quase pelado, caido do céu. Não se fala em outra coisa. As pessoas do lugar, claro, nem se dão conta do fantástico acontecimento, pois há muito tempo não têm mais olhos para ver as coisas dos deuses, por mais óbvias que estejam à sua frente.

Tanto é o alvoroço da queda, que logo ali, do outro lado do Humaitá, uma cerimônia que acontece tem de ser interrompida. Exu, que nem gosta de uma confusão, correu para se inteirar do babado. "Eita! Queque tá pegando aqui? Tá perdido é rapaz?" "Colega! Bom te ver. Estava mesmo precisando falar contigo. Desculpe a entrada cinematográfica. Tupã viu meu elmo e pensou ser você, Sei porque disse algumas danações com o seu nome e meteu-me um raio bem no meio do..." "Eita porra... Antes você do que eu. Já falei pra ele que não invadi a terra dele. Eu fui sequestrado." "É Exu, mas acho que o caso, pelo que ouvi, não está irritado com isso. O que você andou aprontando com a filha dele?"" Então Hermes. Diga logo, qualé de mesmo você aqui."
"Você não vai acreditar, cara. Afrodite, minha irmã, inventou de ir conhecer o Oriente Médio. Disse que ia lá passear. Mas todos sabem que o queria mesmo era ver Ares que está na Mesopotâmia, a resolver alguns negócios com umas empresas petrolíferas. Vá lá se ter um amante...hoje em dia, quem é inocente. Mas fazer isso assim, abertamente, sem nem mesmo tentar disfarçar. Sabe que certa feita Thor trincou o cabo de seu martelo e levou para Hefaísto consertar. Em gratidão deu-lhe um elmo usado em batalha pelo próprio Odin. Quando meu pobre cunhado colocou à cabeça o presente e deixou-se ver com aqueles dois chifres de carneiro na testa, toda a Europa caiu-se em gargalhada. A risarada foi tão grande que um vulcão na terra nórdica não se aguentou e explodiu de tanto rir, Não se pôde entrar ou sair de avião do continente por quase um mês." "Pois Hermes, é o que dizem, né - Todo castigo para corno é pouco."
"Mas enfim, quando estava minha irmã a passar pelas margens do Jordão, eis quem que com ela topa - aquele linguarudo do Satanás. E você sabe o que dizem os mortais: nunca dê ouvidos ao Satanás. Porém, você conhece minha irmã, Vaidosa, tirada a conquistas amorosas. Pronto. Juntou-se a fome com a vontade de comer." "É, véi. Esse Diabo não é besta não."
"É, mas você sabe como é este infame - não pode ver nada bem. Foi ele ter com Afrodite. Depois de ganhar lá seus beijos e afagos, o descarado disse a minha irmã que ela sem dúvidas era a mais bela de todo o Olimpo. Mas que tinha ouvido falar de uma terra, além de onde o Sol se põe, em que as deusas têm grandes cabelos pretos como a noite e a pele cor da madeira de oliveira, do pau-brasil e do abeto. Isso foi o suficiente para a doida da minha irmã achar que o Diabo estava a chamar-lhe de feia. A menina voltou imediatamente à Grécia, mandou chamar-me e disse: Hermes, vai aos quatro cantos da terra e avisa que haverá um grande concurso de beleza para saber qual a mais bela deusa de todos os panteões. A vencedora ganhará um ananás de ouro em reconhecimento à sua beleza." "Oxente ómi, e você tá achando isso ruim. Vai dar é mulher bonita."
"É eu sei, o problema é que ela jogou na minhas costas arrumar esse tal concurso de beleza." "Quer saber bróder, Eu vou te dar uma força, Porque se Iara vencer esse concurso, quem sabe Tupã não fica contente e esquece de mim." "Certo, mas tenho um problema: perdi uma de minhas sandálias; Não posso voar.” "Poxa Hermes, eu sou o mensageiro do Orixás, não São Longuinho." "Poxa Exu, nós dois somos os deuses da comunicação, da engenhosidade, da esperteza... e não conseguimos achar uma solução para isso...""Rapais, veja só. Lá em Lauro de Freitas sei de um velha druída que cansou do frio de Stonehenge e se mudou para cá. De repente ela tem uma vassoura voadora lá - e te empreste'' "Poxa Exu, não vai ficar bem eu, um deus grego, andando por aí de vassoura.""Rapais, até parece que grego liga pra isso" "O que!???" "Rapais, veja só, tem um guri que mora por aí; dizem que tudo que some é arte dele. É o saci. Só se agente acha ele e dá um sacode pra ver se ele sabe de sua sandália" "Tá bem, e onde a gente encontra esse Saci." "Ele mora no vento. Ouvi dizer que em Santo Amaro tem uma encruzilhada que passa um rio. Que todo dia, quando o sabiá pia, ele gosta de ir lá beber a água do riacho""Então vamos lá. Deixa eu subir na suas costas""Ô seu Hermes, eu sou negão. Nada de subir nas minhas costas não. Vamo de Ferry Boat. Sabe que inventaram de construir um tal de metrô em Salvador, que até hoje não ficou pronto. Tem mais de vinte anos que a o projeto tá no papel. Só de obra já tem dez. Só para castigar essa cambada de político safado, você precisa ver a empresa que eu botei pra tomar conta do Ferry Boat. Nem aquele seu amigo Satanás faz coisa pior."
Com o Sol já quase a se esconder por trás da ilha, a garota que descansa sentada ao farol confere as horas. Precisa ir trabalhar no dia seguinte. Levanta-se e caminha. Ao dar a volta na igreja para tomar o rumo do Bonfim, cruza com a outra garota e pensa "Bem bonita ela. Queria ter um cabelo desses; Queria ser bela.” Hermes e Exú se escondem atrás de uma pedra e tomam forma de gente. O grego, alto, nariz grande, não muito forte, mas com músculos trabalhados, cabelos louros e encaracolados; O africano, estatura média, não é o que poderia se chamar de malhado, mas um corpo ágil como um bom capoeira. Lá partem os dois para duas odisséias: primeiramente, conseguir embarcar no Ferry Boat; segundamente, achar o Saci em Santo Amaro da Purificação.

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