Deus fez os trópicos para que tivessem apenas duas estações: seca e chuva. Deus cuidou para que os animais dessas terras úmidas e ensolaradas acasalassem no frio e se alegrassem no calor. Fez as aves tão coloridas que a paleta de Da Vinci não seria suficiente para pintar todas as penas sequer de uma única arara. Às plantas, deu o Criador a cor, o sabor e o cheiro que não se encontram em lugar nenhum mais. Fez delas veneno, alimento e beleza. Quanto ao homem - e a mulher - os fez nus. Sobre o corpo vermelho apenas urucum, andá, inapaba. Sob a pele lisa e macia, o espírito guerreiro e a gentileza de um povo sem corrupção - um povo sem governo.
Quisera esse Deus - que não o deus europeu, pois não castiga, não cobra dívidas e não manda invadir terras dos outros, escravizarem outros povos nem ir a casa alheia aos domingos, pregando uma palavra sabe lá de quem. Esse Deus que é natureza, que é majestoso, responsável não pela guerra, não pelas armas de destruição em massa, mas pelas belas coisas dessa terra chamada América.
Quisera esse Deus não tirasse férias, Que sua palavra fosse maior e mais forte que o deus do velho mundo, Que pune e que ordena, Que empossou e destronou reis, criou estados e direitos penais e sentenças de morte, O deus das cruzadas e das guerras ideológicas, O deus que cria em si mesmo sua própria antagonia e depois separa em fiéis e infiéis aqueles que devem ser mortos, matar e morrer. Quisera nosso Deus americano que seu irmão europeu jamais tivera dado o barco e a vela e a pólvora e a fé aos homens brancos de olhos azuis. E foi com a força desses quatro elementos - o barco, a vela, a pólvora e a fé, como que num mito moderno, o fogo e o ferro forjaram os alicerces de um novo mundo. Sob o reinado desse novo deus toda a beleza foi condenada e proibida; os corpos nus se esconderam como se ser homem ou mulher fosse motivo de vergonha; os animais ganharam chifres e cascos e eram sujos e cinzas e traziam consigo a peste. Os pássaros não mais voaram, e um a um, o tié, o sabiá, a arara, a graúna, foram parando de cantar. O urucum e o andá e a inapaba arderam em fornos e engenhos, O velho deus - da cobiça e da ganância - desfez tudo quanto pode que fora criado pelo seu antecessor. No lugar das florestas cresceu um pau doce e afiado do qual não se come nem se tira fruto algum, Desse pau se fez uma terra, de sabor enjoado, que viciou os homens e os fez esquecer como é o gosto das frutas e raízes que o Deus americano deu ao seu povo para matar a fome e a sede. E dessa terra produziu-se muito; e essa produção trouxe de lugares distantes a cobiça dos homens aos quais chamam de espanhóis, ingleses, portugueses e holandeses.
Mas o deus do velho mundo não estava contente com o homem branco, porque ainda que os homens e mulheres americanos não tivessem mais suas florestas, sua nudez, nem o canto de seus pássaros, eles ainda tinha a crença no seu antigo Deus. E essa crença os tornou fortes e valentes e perseverantes.
Então o velho deus percebeu que beleza que dantes habitava os rios, os peixes, as aves e o pôr do sol desta terra americana, refugiou-se no espírito oprimido de seu povo. O deus dos europeus então criou tribunais e ordenou aos seus juízes que construíssem fogueiras por toda a Terra, onde mulheres de seu próprio rebanho foram sacrificadas em louvação ao seu nome. Com a força do sangue e da carne queimadas, e do sofrimento e da perseguição e do medo das mulheres, o velho tirano ordenou que o homem branco fosse ao novo mundo e colonizasse a terra, as plantações e a alma dos homens e mulheres que lá encontrasse.
Então o homem branco partiu em suas grandes canoas e cumpriu a palavra do velho deus. E a liberdade do povo americano foi tirada; e suas terras foram chamadas de sesmarias, e capitanias, e vilas, e cidades; os homens foram mortos; as mulheres, violentadas - e mortas. Os povos foram um a um amansados, e catequizados, doutrinados. Um a um os corações do novo mundo foram sendo destruídos, e em seu lugar os homens e mulheres da terra chamada América passaram a ter sob seus peitos a fé no velho deus europeu.
O massacre não foi suficiente e os homens e mulheres do nosso mundo resistiram. Fizeram do holandês,do português e do espanhol seu alimento. Apoderaram-se de sua belicidade. Foram à guerra, à resistência. E o velho deus europeu deliciou-se ao ver seu próprio rebanho padecer pelas flechas e cacetes e veneno do povo valente de pele vermelha. Mas o senhor logo percebeu que toda a guerra, e toda a violência, e toda a resistência não eram em seu nome, nem por conquistas, nem por dinheiro, mas em nome de um mundo que se recusou a morrer. Um mundo que não foi feito de sangue, de individualidade ou de cobiça.
Mais uma vez o deus velho descontentou-se com o homem branco. Apesar de toda a guerra e toda a raiva e toda a discórdia, os povos americanos não esmaeceram em seus propósitos. O senhor da guerra percebeu então que apesar de ter contaminado o coração dos homens e mulheres americanos com o medo e a morte, a beleza conseguiu fugir novamente e se esconder na união desse povo, que agora lutava junto.
O velho deus entãotomado por fúria lançou sobre os americanos a peste e a praga. Por toda a terra das Américas a doença, a fome e o terror espalhou-se, perseguindo cada ancião, cada mãe, cada guerreiro, cada criança. Os homens já não tiveram mais forças para erguer a borduna; as mulheres não mais teceram; os xamãs não encontraram em suas plantas resposta à praga que o deus enviara de outras terras; O homem branco prevaleceu sobre o chão do novo mundo .Nações inteiras foram dizimadas. Impérios. Línguas foram esquecidas. Livros queimados em fogueiras que arderam por dias. Medicina e astronomia de milênios perdida em décadas; Toda a memória de um povo - ou melhor, vários povos - reduzida a mero folclore. Onde antes se soerguiam observatórios astronômicos, pirâmides e estádios desportivos, o homem branco ergueu seus templos de louvor ao seu deus de olhos azuis. O homem e a mulher antes dono da terra e da comida e da água e dos deuses deste lugar, não
restaram donos nem mesmo de sua liberdade. Por ordem do velho deus, os filhos da terra sobreviventes foram violentados, escravizados, catequizado; todos os sonhos americanos enfim, fora colonizados.
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