É outono. A Terra se prepara para mudar os passos da sua dança cósmica através da infinitamente pequena fração de espaço a que lhe chamam órbita. Sem pressa, mas também sem preguiça - até mesmo porque não é dado a planetas terem sentimentos humanos. Vagarosamente o calor se despede, levado pelas aves migratórias para terras longínquas e exóticas, as quais apenas aos pássaros e aos loucos é dado o direito de visitar. O vento antes quente e úmido sopra agora frio e seco, comprovando que nem apenas aos rios vale a astuta conclusão de Parmênidesde de Eléia: “não é possível ser soprado duas vezes pelo mesmo vento” - diria o velho obscuro.
É tarde. Não tarde de estar tarde, mas tarde de estar à tarde, após ao meio-dia. A luz do Sol se confunde com as nuvens como se Deus estivesse a investigar alguns matizes de cor para os novos mundos que por ventura venha construir. Se fosse possível caminharmos sobre esse momento como um pequeno lagarto o faz pela superfície da água, veríamos o tempo retorcer-se tentando não passar. Por algum motivo essa tarde preguiçosa insiste em ser domingo.
Ao longo do horizonte a única garantia que ainda existe céu e mar e que o mundo não se acabou em aquarela é uma linha tênue de terra que os separa. Às vezes lembrando a barriga de um bêbado deitado, as vezes sumindo, como se mergulhasse nas águas, a silhueta das ilhas e penínsulas ao longe citam em seu rodapé uma série de mitos onde, de uma forma ou de outra, uma serpente sempre acaba engolindo a própria cauda.
A essa altura os leitores mais preocupados com a sexologia de serafins e querubins poderiam alegar ser demasiadamente europeu este cenário traçado sem muito pudor tropical. Ora, qualquer um com um pouco de estudo nas artes da geografia, geofísica ou meteorologia poderia constatar que o clima mediterrâneo pode ser encontrado no Chile, na África do Sul e até no sul da Austrália. Mas é certo que, independentemente da ordem artificial das coisas, tal qual a noite precede o dia; ou ainda da desordem natural das coisas, incerta como as partículas subatômicas que constituem a base de tudo que é ou que será, por que não é o cenário demasiadamente chileno que se encontra à orla do lago romano.
O chão mais próximo, de calçada e asfalto, se perde nas montanhas ao fundo. A impressão que dá lembra as asas daquela grande serpente, antes que Deus tivesse a chance de cortá-las. Em formato de baía, como que se abocanha-se o espelho do céu no mar, parece fazer da imensidão do oceano apenas um pequeno lago laranja e azul. A expressão “lago romano” nunca pareceu tão justa.
Como se tudo isso não existisse - e de fato não existe, considerando o conceito de realidade que a maioria das pessoas teima em acreditar - uma estrutura de madeira que em nada lembra as árvores que fora um dia, é deitada implacável e impassível. Não dá a mínima importância para a paisagem construída com tanto trabalho conjunto do Deus que a tudo dá causa, do escritor que tudo descreve e do leitor que a tudo interpreta. Sem dúvidas é uma estrutura má.
Por que deveria então este narrador deter-se a descrever, elucubrar enlindecer esse amontoado de madeira putrefada, que nem fruto imediato da natureza é. Ora, um cais, que nada mais é do que uma ponte órfã de margem, podre pelo tempo, abrigo de seres repugnantes e escrotos, que existe sem dar a mínima atenção à paisagem, às pessoas ou às coisas boas da vida. Não come churrasco, não bebe cerveja. Nunca se preocupa em saber o nome e a idade daqueles que a visitam. Quantos suicidas teve a chance de salvar, Quantos casais pôde ter ajuntado, sem o fazer; Quantas rimas pobres poderia ter salvor se soprasse no ouvido dos poetas alguma verdade sobre a mediocridade humana. Para que se deter mais em algo que poderia ser a mais revolucionária das estruturas deste mundo, mas contenta-se em ser pisada, comida e decomposta.
Não tão lindos quanto a paisagem, ou tão laranja quanto o mar, nem tão migratório quanto as aves - que a essa altura já cruzam a linha do equador - um par, que para efeitos de lirismo é pressuposto por casal - retorna de sua tarde romântica à beira do cais. Não dizem nada, pois estão inebriados pela endorfina e pela serotonina liberadas durante os longos e ardentes beijos. Estão naquele estado de espírito compartilhado e compreendido por drogados, chocólatras e atletas profissionais. Se bem verdade que, se em tempos remotos esse mesmo estado mental fora cantado e venerado em trovas romanescas, hoje é tão banal - vendido diluído em líquido preto e travestido pelo amor a tudo isso - que as pessoas realmente acreditam que a falta desse sentimento inebriante é sede e fome, e se empanturram de açúcar, gordura e outras coisas misteriosas disfarçadas por rótulos vermelhos e embalagens bem boladas. Por querer demais o prazer, o ser humano esquece-se do sagrado valor do sofrimento - e por isso engorda - de medo.
O mais deplorável de toda a cena, contudo, não são os vermes da madeira podre, tão pouco a própria madeira podre - que já deduzimos ser uma madeira má; Esta poderia, se falasse, argumentar que não pensa. Se não pensa, logo não existe. Se não existe, não pode apreciar a paisagem, acreditar em Deus ou anunciar a mediocridade do mundo. Como bons cartesianos, a nós caberíamos aceitar esses argumentos da madeira. Se não pensa como pode existir, se não existe, como pode fazer coisas que pressupões um estado de existência. Ainda que pisada, comida e putrefada - como a realidade social frente ao direito - teríamos que admitir - como os juízes: é verdade, não existe.
O mais ignóbil e vil estado de toda a cena é daquele casal. Satisfeita a lascívia dos pombinhos, não precisam mais olhar os lírios dos campos, estes já cumpriram o seu papel, Já podem virar adubo na fazenda de porcos mais próxima. A paisagem nem lhes interessa. O sol nasce e se põe incansavelmente há bilhões de anos - e por mais bilhões o fará - sempre fazendo seu papel de cupido às mais bizarras criaturas que já por aqui passaram. Cumprido seu papel, que vá cuidar de fazer lá suas fotossínteses - pois após o sexo sente-se fome e precisa-se comer; ou fumar. A ponte - nem perceberam que é um cais - que caia, que mate afogados todos os escrotos seres que dela vivem; Até Deus tem sua parcela de desprezo e volta e meia precisa lançar mão de alguns infortúnios para lembrar ao casal quem é que manda. Um enrosco financeiro aqui, uma enchente ali, e tome-lhe o povo a rezar.
O casal da cena, ao contrário do vil aglomerado de madeira, pensa, e não pode usar-se da exeptio non cartesius para defender-se. Afinal pensam. Logo existem. Se existem, podem fazer coisas que apenas aos existentes é dado - obedecer. Não lhes é dado o direito de serem ignorados pela lei - tais como o cais e a realidade social, O casal existe e isto basta. E tudo o que é podre, que é escroto e habitado por vermes naquele cais não existe. É tudo o próprio casal, tentando encontrar num cais que não existe as madeiras podres e os vermes sobre os quais tiveram de caminhar.
Até agora a imaginação deste autor trabalha dentro de uma gama de possibilidades reais. Seja os pássaros, a tarde de outono, o casal egoísta ou as montanhas ao horizonte. Contudo um questionamento urge a esta altura, para que serve a arte se esta limitar-se ao possível e provável. Certa vez um grande sábio - e o digo sábio porque, independente do que tenha feito em vida toda, por um único dia de anamnese regional, disse em uma frase o que quinhentos anos de cultura não foram capazes de cunhar: “pense em um absurdo, na Bahia há um precedente”. Nada mais verídico.
Neste salmo digno de um messias está resumida toda a ideia de arte: há tantas pessoas no mundo ,e na Bahia, tantas já houveram e tantas haverão, que se a arte limitar-se ao provável e ao possível, não precisaremos mais de pessoas que criem, que escrevam, que sonhem. Basta recolher alguns causos pelo mundo afora. As coisas mais absurdas serão descritas, de tal forma que quando ocorrem em um meio que não a vida real, levantam da plateia um suspiro - “só em cinema mesmo...”
Neste ponto do onanismo literário surge um ser. Pode ser um viajante intergaláctico. Perdido, Que parou para pedir informação. Por favor senhor, qual alinhamento é o mais favorável para seguir à alfa do centauro; é claro que se um ser de outro planeta fosse tão inteligente ao ponto de chegar à Terra, seria também inteligente de aqui não ficar; nem parar para pedir informação. É sabido que os comentários que circula por aí nos microblogs intergalácticos que a Terra em nossa galáxia é como aquela rua perigosa na periferia da cidade: se tiver que passar por lá, não o faça à noite; se o fizer, não se perca; se perder-se não pare para pedir informação; tente fazer o caminho de volta, ou tente achar a avenida principal e saia de lá - vivo.
Descartado por dedução o visitante extraneus, outra opção é considerar o estranho um espírito que se materializa. Esta opção é tentadora. A julgar pelas característica do ser que surge: cinza, sem expressões, sem falas e sem pés - é uma alma penada. Contudo, tão inverossímil quanto a dedução anterior esta é. Pois é óbvio. Diz a sabedoria popular, por muitas vezes superior à ciência e à religião, que vaso ruim não quebra. Hipótese esta que pode ser comprovada pela vida dos grandes políticos desse país. Internações atrás de internações, os velhos dinossauros se mantém firmes e fortes na coxia do teatro político, por vezes algum vai ter com São Pedro. Mas sempre sobram aqueles velhos MacLeods da ditadura militar, invencíveis, impassíveis. Quando ocorrem de padecer por qualquer praga humana, deixam em seu lugar filhos e - sobretudo - Neto, alguns projetos de pequenos caudilhos que, para nossa sorte, aparentam poucas chances de se concretizar.
Uma vez constatado que os piores herdam dos bons esse País, porque estes têm maiores chances de empacotar, E pessoas boas não têm motivos para ser tornarem almas penadas. Mais uma vez a lógica do não-perdi-nada-lá é aplicável. Uma vez no céu, realizado junto a Deus, Buda, Cristo ou enebriado por dez mil virgens, o que um espírito tem a fazer na Terra; Já atormentado por uma vida de filas em bancos, impostos, violência e programação dominical na televisão, é pouco provável que um ido deste mundo venha procurar alguma sarna entre os pobres mortais.
A narrativa continua sua jornada por entre letras e palavras, rumo ao lugar nenhum dos textos escritos, lidos e esquecidos. E num mundo cada vez mais dinâmico, onde as pessoas mal tem tempo para sentirem e/ou demonstrarem afetos e gentilezas para com seus familiares, amigos e mendigos - bem verdade que essa regra não se aplica para com os animais domésticos - estes escritos clamam por um final breve e sensacional, que deixe a impressão de que esta maçante leitura de quinze minutos tenha valido mais do uma mensagem dessas de auto ajuda que chegam por e-mail.
Com o fim se aproximando e sem mais alternativas que expliquem esse ser horrorizado que surge em uma cena que parece bela, o que resta senão cogitar. Um leitor atento e conhecedor das artes pode facilmente perceber que toda a cena até aqui tão bem planejada, idílica, só pode ser fruto do trabalho de um gênio. E este é um norueguês, expressionista, pintor. O que se passou na cabeça do senhor Munch ao colocar um ser que de tão horrorizado causa horror, em uma bela tarde que aparenta ser de outono, sobre um cais que aparenta ser de boa madeira, frente a um casal que aparenta ser apaixonado, não se pode dizer. Pode-se cogitar. E como a sabedoria dos romanos nos ensina, não pode a lei punir a cogitação. Cogitar sobre obra alheia, resta dizer, não é crime.
O que faz o homem que grita então. Grita. Mas por que. Talvez o grito seja de medo, de horror, de tédio. De espanto. ou de pudor. De medo da guerra, da tecnologia, dos seres sem tempo e sem alma que estamos nos tornando. Cada vez menos parecidos com o belo cais de madeira podre ou com o céu de aquarela refletido ao mar, cada vez mais semelhantes com a forma humanoide que grita sem nem saber porque.
A obra de um gênio expressionista é genial e é expressionista, não porque é uma obra de arte, mas porque é uma obra de expressão. A verdadeira matéria prima de homens como o senhor Munch não é a tinta ou a tela - é a expressão. A pintura é só um meio. O verdadeiro resultado final é o que sente o expectador. Tomemos emprestado a genialidade do pintor para encerrar essas linhas com algo que na poesia seria uma chave de ouro.
Este ser é você, leitor, ao terminar este texto, que lhe roubou quinze preciosos minutos, Esperando uma moral de nove e noventa e nove. Queria poder ver sua expressão aos descobrir que a narrativa termina como começou, sem mais nem menos, como um lagarto caminhando sobre as linhas da realidade, em um raro momento em que se pode sentir como é tentar parar o tempo.

P.S. - Aproveite o anonimato da internet, agora que você está sozinho, na frente do seu computador, relaxado - se solte, descontraia - bote as mãos na cara e dê um grito, como esse cara aí. Solte seu stress!!!!
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